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Blog ESPÚRIO do escritor MARCELO NOCELLI


         A arte da política


Numa pequena e pacata cidade no interior do Brasil ainda se acredita em lendas: curupira, mula-sem-cabeça, lobisomem, saci, duendes e até em políticos honestos. Zé Venturinha era um deles. Não dos crédulos, mas dos políticos. E dos mais influentes. Foi prefeito por quatro vezes e vereador outras tantas. O apelido, diminutivo de seu sobrenome por parte de pai, o velho João Ventura, ganhou vulto por seus admiradores que viviam a proferir sua trajetória de coragem e luta. Sabia como agradar o povo. Trabalhava muito bem os programas assistencialistas e não se envergonhava de pedir votos. Para os que ainda não tinham água encanada, presenteava-os com tanquinhos de lavar roupas. Aos moradores das regiões que ainda não tinham esgoto, o presente era latrina ou pia de louça. Aos que não tinham luz elétrica, abajures, ferro de passar e até televisores de segunda-mão, se a família fosse grande. Depois, durante a campanha, vinham as promessas de saneamento básico, esgoto, água encanada, eletricidade para todos. Certa vez, antes de sua segunda eleição para prefeito, chegou a fixar os postes de parada de ônibus pelas sete ruas do vilarejo. Disse que estava apenas adiantando o projeto e que depois de eleito traria da capital um ônibus novinho; o coletivo circularia pela cidade durante todo o dia, fazendo inclusive, viagens as moradias mais distantes nos horários da manhã, tarde e noite. Facilitaria a vida dos trabalhadores e das crianças que, por vezes, caminhavam quilômetros para chegar ao único grupo escolar da redondeza. Após a eleição o ônibus foi esquecido sob o pretexto de tirar o ganha-pão do Zé da Kombi, querido por todos os moradores. Os pontos viraram traves de futebol, arcabouço para fixação das bandeirinhas de festa junina e nas eleições seguintes, suporte para cartazes e propagandas políticas do próprio Venturinha.

O prédio novo da prefeitura foi construído bem em frente a sua casa, a maior da cidade, e uma imponente passarela ligava diretamente seu escritório a sala onde ficava sua biblioteca, cheia de livros que ele nunca leu, mas que impressionava os moradores da cidade. Zé Venturinha sempre permitia excursões dos alunos para tomar contato com grandes obras da literatura brasileira. As crianças se deliciavam ao passar pela famosa passarela e ficavam encantadas com as edições encadernadas que eles só viam pelos livros escolares. Nessas visitações, Zé Venturinha sempre proporcionava um reforçado café para a garotada e depois fazia questão de mostrar todos os luxuosos cômodos de sua casa enquanto repetia com sua voz forte e embargada junto às lágrimas: “No futuro, quando eu conseguir completar todo o meu programa de governo (pausa, olhos fechados), talvez em dez ou quinze anos (nova pausa, agora com entusiasmo), todos terão condições de propiciar moradias dignas e confortáveis como essas para suas famílias”.

Durante a campanha para as ultimas eleições, a situação de Zé Venturinha não era lá muito boa. O professor do grupo escolar resolveu se candidatar e fazia forte campanha contra Venturinha. Denunciava seus abusos e demonstrava por meio de vídeos e exemplos o coronelismo exercido pelo atual prefeito. A campanha do professor foi tomando vulto e logo veio o apoio dos adversários de Venturinha, antes enfraquecidos, e das cidades vizinhas. Logo um pequeno grupo de sem-tetos montou acampamento nos arredores da cidade. Apoiavam de forma fervorosa e barulhenta a campanha igualitária do professor, que prometia a reforma agrária e assentamento para todos. Todos os dias faziam passeatas e protestos em frente à prefeitura. Foi aí que erraram. Logo Zé Venturinha atemorizou o povo dizendo que os invasores tomariam as casas de todos, a bagunça e balburdia estava tentando se instalar na cidade. Uma guerra estava para se começar. Mulheres perderiam seus maridos. Filhos perderiam seus pais. Mortes eram dadas como certas num possível e breve confronto. O povo entrou em desespero. O professor foi rechaçado pela população.     

O que ninguém sabia era que Zé Venturinha usava uma perna-mecânica por conta de um acidente na linha do trem, ainda criança, antes de mudar com os pais para a pequena cidade. Motivo de sua maior angústia e embaraço. Nunca se descuidava. Não mancava. Sempre de calças largas. Passos firmes. Acabou fazendo com que seu andar mecânico lhe proporcionasse ainda mais autoridade. Não deixava nem que sua mulher o visse sem as calças.   

Numa determinada tarde, Zé Venturinha saiu sozinho e armado dizendo que iria combater os invasores sem-teto. Quando chegou ao acampamento, negociou amigavelmente a retirada do grupo em troca de umas terras inférteis e sem valor que seu pai havia deixado como herança em sua antiga cidade.

Antes de chegar à praça, onde o povo o aguardava ansioso, Zé Venturinha retirou a perna mecânica e a enterrou num descampado. Com a terra que sobrou se sujou todo. E quando chegou, diante dos olhos assombrados do povoado, disse que a batalha fora dura, perdera a perna, mas conseguira colocar os invasores para correr. Precisava ir para a capital imediatamente se tratar.

Quando voltou, semanas depois, ganhou novamente a eleição. A partir daí não perderia mais nenhuma. Sua estátua, com uma perna só, continua no centro da cidade e seu nome ainda é considerado sinônimo de coragem, honestidade e caráter. 



Escrito por Marcelo Nocelli às 18h13
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Pequenas mentiras, Grandes verdades

  

         Todo o mundo já sabe que 1º de abril é o dia da mentira. Não há uma história que se possa considerar verdadeira sobre o dia da mentira. Verdade. O que já dá maior credibilidade à data. Há muitas explicações para o 1 de abril ter se transformado no dia das mentiras ou dia dos bobos. Uma delas diz que a brincadeira surgiu na França. Desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado no dia 25 de março, data que marcava a chegada da primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1 de abril. Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX de França determinou que o ano novo seria comemorado no dia 1 de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1 de abril. Gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Essas brincadeiras ficaram conhecidas como plaisanteries. Mas ainda há uma variação do mesmo tema, talvez um pouco mais realista, que diz que na época da alteração do calendário os meios de comunicação eram precários, então demorou para que toda a sociedade soubesse da mudança, fazendo com que a confusão fosse aproveitada para a criação de brincadeiras envolvendo mentiras.

         No Brasil, o primeiro de abril começou a ser reforçado em Minas Gerais, onde circulou “A Mentira”, um jornal de vida curtíssima (menos de 1 ano), lançado em 1º de abril de 1848, com a notícia de capa mentirosa do falecimento de Dom Pedro, desmentida logo no dia seguinte. A Mentira saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores e devedores da cidade para um grande acerto de contas coletivo no dia 1º de abril do ano seguinte, dando como referência um local inexistente.

         Fato é que em terras tupiniquins a moda pegou. E não é só no primeiro de abril, não, é o ano inteiro. Não quero dizer com isso que todo mentiroso é brasileiro, mas com certeza todo brasileiro é um pouco mentiroso... Mentira? Atire a primeira pedra aquele que nunca mentiu! É que a famosa mentirinha inocente já se incorporou perfeitamente à nossa cultura... Dentro do famoso “jeitinho brasileiro”, por exemplo, na maioria dos casos é necessário omitir uma verdadezinha, acrescentar uma mentirinha para que o jeitinho realmente funcione... Sem falar dos nossos políticos... Mas ai não vale. Estamos tratando aqui apenas de amadores, mentirinhas profícuas.

         Assim como o jeitinho, as desculpas também vem normalmente complementadas por pequenas mentiras... Não aquelas desculpas sinceras de arrependimento, aquelas por algo que fizemos e nos causou algum remorso, mas aquelas por algo que combinamos e deixamos de fazer, coisas simples, que não molestam nada nem ninguém; é preciso inventar algo para poder ser desculpado... Mas a melhor mentira, aquela que realmente vai convencer, é aquela em que até o próprio “criador” acredita. (Não vou chamar “mentiroso”, uma adjetivo pesado desses pode classificar um simples cidadão, extremamente criativo e convicente inventor de pequenas desculpas, de forma perjorativa, já criador, adjetiva positivamente).

         Bom mesmo, é quando essas pequenas mentiras acabam virando grandes verdades. Como a história do descobrimento do Brasil, por exemplo; Dom Pedro I montado num lindo cavalo branco, às margens do Rio Ipiranga, erguendo uma espada tão imponente quanto a Excalibur do Rei Arthur – outra história que dizem não ser verídica – Mas voltando ao Brasil - segundo estudiosos, nosso imperador bradou a famosa frase “Independencia ou morte” montado numa mula mequetrefe, ainda na subida da serra e num dia de intensa diarréia... O que, sem qualquer analogia, nos libertar de Portugal, naquele momento, foi uma tremenda afabilidade.

          Mudando de assunto, o que pouca gente sabe é que em abril também se comemoram outras datas importantes por aqui, como o dia da força aérea brasileira, o dia do exército brasileiro, dia do hino nacional, o dia mundial da saúde, dia mundial de combate ao câncer, dia de Tiradentes, dia do jovem, o dia do índio e ainda o dia nacional do livro infantil em 04 de abril, data da morte do escritor Monteiro Lobato. (1948) autor da, entre outras, cérebre frase: “Um país se faz com homens e livros.” Ah... Em abril também se comemora o dia do descobrimento desse nosso próspero país em desenvolvimento no penhor dessa igualdade que conseguimos conquistar com braços fortes.

Verdade.



Escrito por Marcelo Nocelli às 00h11
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PROTESTO ABERTO À CULTURA

Essa história é antiga. Toda vez que pensam em reformular a TV Cultura, toda vez em que entra um novo presidente, bionicamente, vão logo com os olhos de gavião direto no Metrópolis, esse programa histórico, memória viva, referência artística de tudo o que rolou e o que rola em São Paulo e no Brasil e no mundo, etc. e tal. Acabam com ele, reduzem horário, mudam de apresentador, cortam pautas. Agora, mandaram embora o apresentador Cadão Volpato, que estava dando uma nova cara às pautas, às conversas, trazendo convidados sempre especiais para um encontro dinâmico, aberto, sem frescura. Toda hora, ao que parece, decreta-se o fim da Cultura. E eis que, para meu susto aumentar, fiquei sabendo que acabam de acabar com o programa Entrelinhas. As unhas agora se voltam contra a literatura. Contra um dos poucos programas em que a pauta são (ou eram) os escritores e os livros. Um projeto que existe desde 2005, resumindo: saiu da grade da emissora. Sem pena, sem dó. Eta danado! Logo no momento em que pipocam festas e festivais pelo país. Em que a presidenta Dilma diz que lê um livro por semana. Ave nossa! No momento em que os escritores viram pauta e, sem exagero, uma profissão com algum respeito, a Fundação Padre Anchieta não quer saber – e fecha a nossa porta. Quantos autores passaram pelo Entrelinhas desde seu começo? Quantas obras se sentiram, raramente, respeitadas? Ali, em horário nobre, aos domingos, não havia destaque mais Fantástico do que este. E nós, escritores, bundões que somos, em nossas poltronas, vamos ficar só de telespectadores, vendo a Cultura afundando? Hein, meu caro? A Cultura é nossa ou não é? Diga-me algo. Estamos juntos ou não estamos? Para o que der e vier. Quero saber do presidente da Fundação o que ele tem a dizer. Com certeza irei lá, pessoalmente, saber. Fui. E você?

ATENÇÃO: já está no ar um abaixo assinado contra o sucateamento da TV Cultura, o fim do programa Entrelinhas, etc. O documento será entregue ao diretor-presidente da Fundação Padre Anchieta, o Sr. João Sayad. Para participar, é bem simples, é só clicar aqui em cima e, é claro, não esquecer de espalhar o nosso protesto para a sua lista de amigos, certo? Abração grato e estamos juntos e valeu e té.

(By Marcelino Freire)



Escrito por Marcelo Nocelli às 14h52
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SARAU DA CAMARILHA DE VOLTA - em edição especial. 

 

No mais, tudo igual:

.Música

.Teatro

.Poesia

.Prosa

.Conversa boa

.Atenção, amizade e respeito

.Palco Livre

.Sorteio de livros e brindes..


Dia 09/03/2012

ÀS 20h30

ECO - ESPAÇO CULTURAL OFICINA

Rua Alfredo Pujol, 381 - Santana - ZN - São Paulo - SP - Brasil (próximo ao metrô)

ENTRADA FRANCA

Informações: (11) 3532-2101


Sobre o Sarau da Camarilha:

 

No Aurélio:

Sarau: s.m. (galego serão) 1. Reunião festiva, à noite, para dançar, ouvir música e conversar. 2. Reunião noturna, de finalidade literária.

Camarilha: s.f. (espanhol camarilla). Pej. Conjunto das pessoas que cercam o chefe de Estado e com ele convivem intimamente, influindo indiretamente em suas decisões.

Em Santana:

O Sarau da camarilha é uma reunião festiva de finalidade literária com um grupo de pessoas que convivem intimamente influindo nos textos nas músicas, sem qualquer chefe de Estado. O único estado é o de alegria, de felicidade e da importância de nossas apresentações, seja para um público de 80 ou de 8 pessoas.

É onde podemos fazer da vida o que nós somos e do que nós somos (juntos) fazer a vida. O Sarau da Camarilha é um violão desafinado ou afinado, é uma poesia concreta ou abstrata, uma voz cantada ou surgida do nada em um pulo de susto, feito um grito. É uma poesia bem feita, dita obra-prima; com ritmo, métrica e rima. Mas também é o poema da menina apaixonada, da professora, do garçom, do aposentado, do escritor, da atriz, do menino sem se preocupar com forma com roupa. Seja pobre ou seja rico, famoso ou ansioso, o palco é livre é aberto, o espaço é o mesmo, porque aqui  não se defende causa, não se reivindica nada, não se prega nada além da arte, do respeito e da amizade. A porta da nossa casa está aberta e os autores locais recebem os convidados não só com admiração, mas com o mesmo prazer e honra com que mostram seus escritos a eles.

O Sarau da Camarilha é a liberdade: de criar, mostrar, apresentar e escutar. É a oportunidade de ver nossa doutora em Letras pintar o rosto de branco e encenar Samuel Beckett com a mesma simplicidade e dignidade com que apreciamos a poetisa apaixonada rimar amor com flor. O intuito é abraçar um amigo, trocar boas idéias, inventar e contar histórias, sentir a poesia, sentir-se poesia. Somos um comboio da arte pelo encontro, da vida e das belas possibilidades que nos dá o fato de sermos demasiadamente humanos.


Sobre Lula Barbosa:

Lula Barbosa iniciou sua carreira artística no início dos anos 70, quando formou o grupo Semente ainda garoto com apenas 15 anos. Venceu vários festivais estudantis. Com o grupo Semente abriu shows de Isaurinha Garcia,Adoniran Barbosa e Paulinho da Viola. Mais tarde nos anos 80 abandonou o último ano de Publicidade e começou a cantar profissionalmente nos bares da noite de São Paulo. Cantou durante alguns anos numa das casas mais famosas e badaladas casas da época, o Boca da Noite, na Rua Santo Antônio, no coração do Bixiga.

Lula Barbosa compõe para diversos intérpretes da MPB; já fez músicas em parceria com Cesar Camargo Mariano, Eduardo Gudin, Thaís Andrade, Fabio Jr, Mario Lucio Marques, Filó Machado D. Pedro Casaldáglia, Abílio Herlander, Miriam Mirah, Jica, Salgadinho, Adriano Stuart, Marcos Rezende, Irineu de Palmira, Canarinho, Celso Prudente, Eduardo Neves, Joãozinho Gomes, Natan Marques, Vanderlei de Castro e Álvaro Gomes entre outros grandes letristas e poetas. Tem mais de 500 composições gravadas por nomes como Roberto Carlos, Jessé, Fábio Jr., Thobias da Vai Vai, Pierre Onásis, Altemar Dutra Jr., Emmanuel, A 4 Vozes, Olodum, Miriam Mirah, Grupo Catavento, Célia, Jane Duboc, Christian e Ralph, Jair Rodrigues, O Terço, Sérgio Reis, Tarancón, Tania Libertad (México), Pedro Fernández (México), Tito Gomez (Porto Rico), Jim Porto (Italia), Amaya Uranga (Espanha), Katinguelê, Negritude Jr., Só pra Contrariar, Peninha e muitos outros.

Lula Barbosa também atua no campo da publicidade, como intérprete de premiados jingles da publicidade e propaganda brasileira, dentre eles Kaiser (Aquarela do Brasil), Brahma Chopp (Vai de Branco prá Dar Sorte), Fiat (Canção do Exílio), Telesp Celular (Andança), Itaú (Amanhã), Varig, Gol Linhas Aéreas, Banco do Brasil, Bamerindus, Vale do Rio Doce, Bota Sete Léguas, Ticket Restaurante e muitos outros.

Lula Barbosa já fez várias trilhas para documentários em vídeo para a Verbo Filmes. Destacam-se Canção para Zumbi (em parceria com D. Pedro Casaldaglia), Mãos Vazias, Nossa Senhora Aparecida, Ameríndia etc...

Lula participou em abril de 2005 da Caravana 3 da nova edição do Projeto Pixinguinha. Juntamente com Mônica Salmaso e Lui Coimbra.

Lula Barbosa já fez shows em várias unidades do SESC, teatros, Feiras, Clubes, Bares, Convenções, e participa em parceria de projetos culturais com vários artistas da MPB, participando deFestivais de Música ora concorrendo como intérprete ou compositor, ora como jurado, ou como artista convidado para os shows de encerramento. Suas participações mais importantes foram no Festival dos Festivais em 1985 com Mira Ira (2º lugar e melhor arranjo) e no último Festival da Globo em 2000 comBrincos (prêmio de aclamação popular).

 

 

 



Escrito por Marcelo Nocelli às 16h38
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LANÇAMENTO DO LIVRO "POP PARA-CHOQUE" de autoria do meu amigo Vlado Lima:

dia 24/02 (última sexta-feira de fevereiro) acontece a festa de lançamento (oficial) do livro POP PARA-CHOQUE e o Sarau Sopa de Letrinhas. Tudoaomesmotempoagora, na mesma noite e no mesmo lugar, o Miquelina Bar & Arte.

O lançamento do POP PARA-CHOQUE rolará a patrir das 19:30 às 21:30, na sequência virá o Sarau Sopa de Letrinhas com a mesma bagunça e alegria de sempre onde o próprio Vlado Lima será o poeta homenageado. 


Editora Patuá e Miquelina Bar & Arte

apresentam
Dia 24/02

lançamento do livro POP PARA-CHOQUE (das 19:30 às 21:30 horas)
& Sopa de Letrinhas (O Sarau do Caiubi) (das 21:30 horas às 24:00)

O livro POP PARA-CHOQUE será vendido por 25 reais (dinheiro ou cheque) e 27 reais cartão.
Também pode ser comprado através do site da Editora Patuá


Sopa de Letrinhas (O Sarau do Caiubi)

a partir das 21:30 Horas
Poeta Homenageado: Vlado Lima
Poesia & Afins
Música
Performances
Participação Especial
Tavito
Alexandre Lemos
Bezão
Moral & Bons Costumes

Stand-Up Comedy: Marcial Cortez

Palco Aberto...
é só chegar... botar o nome na lista e correr pro aplauso...
Brindes (livros, cds e camisetas) para as melhores leituras
Sopa (diverdade) na faixa depois da meia-noite
Onde? Miquelina Bar & Arte - Rua Francisca Miquelina 306 Bela Vista
(A Rua Francisca Miquelina sai da Rua Maria Paula
e é paralela a Brigadeiro Luiz Antônio)
Miquelina Bar & Arte -
Tel. (011) 3107-6596
Aceita todos os cartões
Estacionamento ao lado do bar


Produção: Vlado Lima & Regina Zamora


 



Escrito por Marcelo Nocelli às 18h57
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Nós, os bagunceiros


Li na coluna de um colega (Fabio Sabbag) que Alexandre Fleming sempre foi um bagunceiro. Antes de sair para uma viagem de férias, em agosto de 1928, o bacteriologista irlandês largou seu laboratório em Londres numa bagunça total. Após as merecidas férias, ao voltar para o trabalho, notou que um fungo (talvez surgido do mofo daquela bagunça toda) havia atacado uma de suas famílias de bactérias (que passavam por uma experiência) e que estavam num tubo de ensaio do ambiente de trabalho. Fleming percebeu que os fungos prosperavam e as bactérias morriam. Ali nascia o primeiro antibiótico, a penicilina. Que deu a Fleming o premio Nobel de Medicina. Graças aquela bagunça.

         Normalmente dizem que a desorganização se torna incompatível com a seriedade, produtividade e responsabilidades nas tarefas de uma pessoa. Mas se levarmos em consideração o feito de Fleming, uma dose de bagunça e desordem, claro que em pequenas quantidades, é indispensável para a criatividade.

         Eric Abrahanson, professor da universidade Colúmbia, e David Freedman, jornalista, lançaram em 2003 o livro “Uma bagunça perfeita” e segundo uma pesquisa informal dos autores, feita com 260 pessoas, executivos, funcionários da área administrativa e burocrática – aqueles que declararam ter uma mesa bem organizada, passam em média 36% mais tempo procurando coisas no trabalho, que àqueles que afirmaram ter uma mesa desarrumada – sem falar no tempo perdido em arquivamento e organização de documentos dos “certinhos”.  

         Também não podemos dizer que a “bagunça” é total. Afinal, mesmo na mesa de um bagunceiro existe uma ordem lógica para “organizar a desordem”, e muito simples por sinal: No topo das pilhas que se acumulam em uma mesa bagunçada, encontram-se geralmente os documentos mais importantes e urgentes, sempre à vista (que facilmente serão encontrados), enquanto os assuntos que podem ser adiados ou desprezados vão para o fundo do monte. (Nesses casos, pode até ser necessário procurar, mas como não são urgentes...). É um método flexível que serviu bem para o físico alemão Albert Einstein, cuja escrivaninha na Universidade Princeton era um acúmulo caótico de papéis e anotações.

         Eu particularmente posso falar com certa propriedade sobre o assunto, sou “meio” bagunceiro, digo “meio” porque tenho plena organização de minhas bagunças. E por experiência própria, posso dizer que nós – os bagunceiros – não sofremos tanto quando uma pessoa troca algo de lugar (entre nossa bagunça). Agora imagine, quando você muda algo de lugar na mesa de uma pessoa cruelmente organizada, ela logo vai perguntar: Por que você mexeu aqui? Por que tirou isso do lugar? Mesmo encontrando rapidamente o que procurava, mas só pelo fato de estar um pouco mais para esquerda, ou para direita. Essa pessoa sofre com a alteração de sua organização, por menor que seja, é capaz de brigar por um lápis que mudou de posição em sua mesa. Já, conosco, isso não acontece, afinal eu nunca me lembro, e muito menos me preocupo, se deixei o lápis com a ponta para baixo ou para cima no porta-lápis, mas sempre sei que ele está ali... em algum lugar.

         Sem contar que nós “os bagunceiros”  também temos os nossos “surtos” ou momentos de arrumação. Que são muito prazerosos, às vezes, até emocionantes, pois quando resolvemos arrumar nossa bagunça, passamos horas, ou até, o dia todo nessa atividade (afinal dá trabalho, arrumar toda a bagunça) e ai temos aquelas gratas surpresas: “Olha, faz um tempão que estava procurando isso”. “Nossa! Quanto tempo eu não via isso”. “Olha! Que legal! Pensei que tivesse perdido”. E sentimos essa emoção durante todo o tempo de arrumação, como se estivéssemos encontrando um tesouro escondido a cada momento. Experiência e prazer momentâneo que os organizados nunca terão, pois nunca perdem nada, sabem onde está tudo. Cada coisa tem seu devido lugar... Não há o descobrimento, não existem surpresas, nem mesmo sentem a adrenalina de pensar ter perdido algo importante, e depois ser contemplado pela grande emoção de encontrar o que já era dado por perdido.

         Uma outra vantagem é que o bagunceiro acaba sempre tendo suas coisas a mão, ou seja, tudo está sempre ao seu alcance, estamos sempre prontos e preparados pra tudo. Quando você “bagunceiro” é solicitado por um documento qualquer, é só dizer: “Só um minuto, está aqui em algum lugar” ou, se recebe um convite pelo celular para um jantar de negócios, sempre existe uma gravata jogada no carro, perdida na mala, enquanto os organizados dirão: “Hum... Tenho que passar em casa”, ou, “Isso está exatamente na terceira gaveta do armário da direita em meu escritório, tenho que passar lá pra pegar, vou me atrasar um pouco”. 

         Só existe uma regra: Nós os bagunceiros até podemos incomodar as pessoas normais e principalmente as extremamente organizadas, mas nunca podemos atrapalhá-las, ou interferir em suas vidas e organizações com nossa bagunça, pois, dessa forma, estaríamos colocando em risco nossa reputação e o movimento a favor da bagunça moderada. 



Escrito por Marcelo Nocelli às 19h39
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VOZ DA EXPERIÊNCIA

  

            No jornal de domingo não encontrei nenhum anúncio. Arrependo-me de não ter terminado a faculdade. Hoje sou técnico em nutrição, o que para nós, técnicos em nutrição, é quase a mesma coisa que ser nutricionista; já para eles, os nutricionistas, somos meros auxiliares de enfermagem, ajudantes de cozinha. Para os empregadores, os donos de hospital, todos nós somos um monte de merda que cuida da comida dos doentes. Olhei o bolsão de empregos em busca dos informais. Um anúncio procurando enfermeiro para tomar conta de um velho doente poderia ser a solução provisória para minha extensa fase de desemprego e, consequentemente, de falta de dinheiro.

            Na segunda-feira pela manhã, atravessei o centro da cidade preocupado com a carteira que, apesar de vazia, continha meus documentos. Fui obrigado a desviar das pessoas idiotas que formavam rodas para ver outros idiotas fazendo malabarismos pela rua.       

            Cheguei ao apartamento na Avenida São Luiz. Uma jovem senhora abre a porta. Digo que vim pelo anúncio. Ela me manda entrar. A sala é enorme e, da grande janela, vejo toda a Praça Dom José Gaspar, inclusive a biblioteca Mário de Andrade. Um senhor de poucos cabelos grisalhos está sentado numa cadeira de rodas observando tranquilamente a cidade agitada lá em baixo.

É para tomar conta do meu pai, diz a mulher.

Tudo bem, e quando posso começar? pergunto.

            Agora mesmo, se não se importar. É que na verdade nosso antigo enfermeiro pediu demissão na sexta-feira. Coloquei o anúncio às pressas. E graças a Deus você apareceu. Disse ela enquanto pegava sua bolsa, um casaco e um guarda-chuva. Algumas pessoas em São Paulo têm a mania de carregar casacos e guarda-chuvas, mesmo nos dias em que não vai chover ou esfriar.

            Precisava responder rápido, também queria me livrar daquela mulher tanto quanto ela parecia querer se ver livre da minha presença e do velho. Aceito. Respondi. Ela parecia já ter certeza de minha resposta desde o momento em que entrei. Então está bem. Pago semanalmente, toda sexta-feira. No armário da cozinha estão os remédios, com as receitas indicando a posologia. Tem sopa e frutas na geladeira. Papai não pode comer outra coisa. Fique à vontade para abrir os armários e preparar qualquer coisa que desejar comer. Volto às sete. Até lá. Disse a mulher saindo apressada.

            A principio não tive problemas com o velho. Sentei no sofá e liguei a televisão. Ele só virou a cadeira depois de duas horas. Quero descer, andar na praça. Foi só o que disse. Como não havia instruções sobre isso, resolvi levá-lo. Tentei puxar conversa. O velho não respondia às minhas perguntas. Apenas pediu que não o tratasse como uma criança. Tudo bem. Pensei comigo, velhos e crianças, pra mim, sempre foram a mesma coisa; dão trabalho e reclamam de tudo.

            Chegamos à Praça Dom José Gaspar e ele pediu que eu parasse ali, ao lado do bar Varanda. Escutou o samba antigo que vinha do bar. Perguntou se eu gostaria de tomar uma cerveja.

Acho que não faria bem ao senhor. Respondi.

Perguntei se você queria tomar uma cerveja, não disse que tomaria também. Me leve até a Praça da República. Resolvi obedecer, não pretendia colocar meu novo emprego em risco, não no primeiro dia.

            Queria ser como a cidade. Iniciou uma conversa, fez uma pausa, olhou para as obras do metrô e voltou-se para meu rosto, deixando claro que continuaria a falar. O tempo passa e a cidade fica cada vez mais nova. Rejuvenesce. Nós não. Hoje tenho oitenta e seis anos. Ela já tem mais de 450 e está cada dia mais moça, quase irreconhecível. Quando tinha vinte anos era aqui que eu costumava namorar. Daqui eu via os operários trabalhando na construção do Copan. Era uma obra prima da engenharia civil. Cheguei a ver o Oscar Niemeyer e o Carlos Alberto Cerqueira Lemos andando e discutindo sobre a obra. Também vi a construção do metrô começar por aqui em 1978. Em 82 foi inaugurada a estação República. E que time tínhamos em 82, lembra-se? Você devia ser garoto. Mas gostava de futebol, não é mesmo? Sem me deixar responder, ele continuou. Aquele Paulo Rossi... Nosso time era muito melhor... Não gosto nem de lembrar. Leve-me até a esquina da Ipiranga com a São João. Ordenou ele. Segui empurrando a cadeira de rodas. Durante o percurso ele não disse uma palavra. Apenas olhava para o movimento das pessoas apressadas. Fez um gesto para pararmos em frente à Rua Vinte e Quatro de Maio. Observou o movimento por alguns segundos e pediu que seguíssemos em frente. Parei na esquina mais famosa de São Paulo, como ele mesmo se referiu ao local, quando deu a ordem.

Veja o bar Brahma, voltou a falar novamente com brilho no olhar. “Ah”, suspiros, de ambas as partes. Ali vi Hebe Camargo cantando. Que mulher! Você não acha? Não respondi. Estive na inauguração em 1948. Sentei-me à mesa ao lado do Jânio Quadros... Aquele gostava duma birita. Não posso falar nada, eu também gostava. Mas o bom mesmo era quando o Adoniran ou o Ari Barroso vinham cantar. Lotava. Enchia de garotas. E como eu dançava... Era um verdadeiro pé-de-valsa! Foi dançando que conquistei Catarina. No começo ela resistiu. Não queria dançar. Acho que ficou com vergonha. Também... Eu dançava muito pra ela. Mas não fui arrogante, acompanhei seus passos e sem que ela percebesse, eu a conduzia. Foi assim que ensinei Catarina a dançar. E em passos leves, naquela mesma noite dei-lhe o primeiro beijo. Ela estava tão extasiada com a dança que nem pensou em recusar. Foi durante o show do Cauby. Dali, seguimos de mãos dadas pela São João. Levei-a até em casa, na Santa Cecília, depois voltei andando até o Brás. Feliz da vida. Vamos sair daqui. Disse o velho encerrando o assunto com lágrimas nos olhos. Empurrei a cadeira no caminho de volta para a Avenida São Luiz. Ele pediu que desse a volta, sofri para passar pelo Anhangabaú, depois viaduto do Chá. Mais uma parada, agora em frente ao Teatro Municipal. Ah... O Teatro. Aqui começou a organização da Semana da Arte Moderna. Isso eu não vi. Mas ficou marcado em minha vida. Foi justamente quando eu estava nascendo. Mas aqui vi Cacilda Becker, e pouco tempo depois trouxe Catarina para assistirmos a uma peça do Procópio Ferreira. Foi justamente quando a pedi em casamento. Ah... Que saudade da minha Catarina. Por favor, vamos voltar. Estou cansado. Cansado estava eu de empurrá-lo pela cidade. Dali em diante ele não disse mais nada. Apenas lágrimas. Eu morrendo de fome, com vontade empurrar o velho ladeira abaixo, na descida da São João e vê-lo esborrachar no prédio velho do Correio.

            Quando entramos no apartamento, olhei para o relógio. Seis da tarde. Escutei o badalar dum sino em pleno centro da cidade, fazia anos que não me lembrava de ouvir um sino, ou ao menos de prestar atenção em um. O velho voltou para a janela e disse na maior calma que já havia passado a hora dos remédios. Corri desesperado ao armário da cozinha, lembrei que também não havíamos comido nada até àquela hora. Procurei pelas receitas, conferi por diversas vezes as doses prescritas. Ele apenas sorria. Dei o remédio ao velho e, quando fui guardá-los na cozinha, aproveitei para tomar dois calmantes que encontrei no armário. Depois de tomar os remédios, ele rumou a cadeira até o sofá em que eu estava sentado:

            Meu jovem. Você não é enfermeiro! Não é mesmo?

            Sou sim, senhor.

            Eu sei que não é. Um sorriso amistoso.

            Na verdade sou técnico em nutrição. Tudo área de saúde. Posso cuidar do senhor tranquilamente. Não se preocupe.

            Eu não estou preocupado. Na verdade, estou. Mas não comigo. Estou preocupado com você. Por favor, vá embora e não volte amanhã. Não tente ser o que você não é. O tempo passa. Eu vivi cada dia da minha vida, e hoje só me resta saudades. Saudades da Catarina. Saudades da minha mocidade por essa cidade. Saudades de mim mesmo. Ah... Só Deus sabe como tenho saudades dos meus dezoito, vinte, trinta, quarenta e até dos meus cinquenta anos. Para falar a verdade também tenho saudades dos meus sessenta, dos setenta e até dos oitenta. Tenho saudades de dois anos atrás, tenho saudades da minha vida até o dia em que Catarina se foi. De lá pra cá, a única coisa que quero é partir logo. Mas Deus me fez forte e com ele não adianta teimar. O máximo que consegui até agora foi essa cadeira de rodas. Até a lucidez ele me deixou, para que eu possa sofrer um pouco mais. Os crentes em Deus não acreditam que a vida possa ser feita só de alegria. É preciso provar um pouco de dor. Não sei quanto tempo me resta. Mas vejo que você ainda tem muito que viver, muito tempo pela frente. Minha filha não quer perder o seu tempo cuidando de mim e nem eu mesmo quero que ela faça isso, mas não é justo que pague para outra pessoa, um desconhecido, perder seu tempo comigo. Não perca tempo em troca de dinheiro, não vale a pena. Por favor, vá embora. Viva sua vida. E se chegar a minha idade, espero que tenha saudades dela. A vida é curta, meu rapaz, e veja que quem lhe diz isso é um velho de oitenta e seis anos.

            Sai caminhando lentamente. Segui pelo viaduto Maria Paula. Quando cheguei à estação Sé, um grupo de malabaristas decadentes tentava fazer algo parecido com um show. Peguei as únicas moedas que tinha e joguei no chapéu que eles haviam deixado no chão. Queria me livrar delas. Não gosto de moedas. Dinheiro pequeno. Muito barulho no bolso, por nada. Depois contei tranquilamente às notas que havia roubado na casa do velho. Resolvi seguir os seus conselhos; seria eu mesmo, para sempre. 



Escrito por Marcelo Nocelli às 18h16
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Então é natal

 

         Mais uma vez é Natal. O Trânsito terrível. Milhares de pessoas se amontoando nos shoppings. Outras tantas se acotovelando na Rua Vinte Cinco de Março. Suor e lágrimas nos corredores estreitos e lotados da Galeria Page. Piercings se entrelaçando no aperto das escadas da Galeria do Rock. Filas e correrias pelas tendas de lojas infantis montadas em estacionamentos e parques para conseguir a tempo; não só os brinquedos para a criançada, mas também a guirlanda para enfeitar a porta, o pisca-pisca para a sacada. Alguns poucos com boa criatividade e ótima ociosidade, mergulham mais a fundo no espírito natalino e compram a matéria prima para fabricar seus próprios enfeites e presentes. Sem falar na dedicação daqueles que montam árvores de natal. E a configuração do presépio então, horas e horas de dedicação, terapia para alguns, incorporação do verdadeiro espírito natalino para outros. Uma presepada e tanto nos dias de hoje. Mas nada representa mais o natal que a figura do Papai Noel.

        Antigamente as famílias faziam questão de manter o espírito natalino com toda essa alegoria reluzindo de acordo com suas possibilidades. Hoje o comércio se encarrega disso, incentivando os vizinhos a competirem em ornamentações luxuriantes. Em mansões nos bairros mais nobres, jardins que lembram o Rockefeller Center em Nova York. Em casas de menores posses, nos bairros mais afastados, algumas dão a nostálgica impressão dos cabarés, outras são confundidas com as chamadas “Casas da Luz Vermelha.”

        É certo também que a figura do Papai Noel já não tem mais tanta importância em nossa sociedade globalizada. Quando eu tinha por volta de seis ou sete anos, eu me lembro que o Papai Noel andava de trenó voador puxado por renas, era dono de uma casa própria muito charmosa no Pólo Norte e, para nossa alegria, ainda mantinha a maior fábrica de brinquedos do mundo, onde milhares de duendes trabalhavam dia e noite para produzir e distribuir os presentes para crianças de todo o mundo.

        Naqueles tempos, Papai Noel entrava em nossas casas (mesmo sem chaminé ou lareira) sem que notássemos e deixava os presentes para que encontrássemos depois da sua partida. O presente podia ser o que havíamos pedido ou não, quem decidia era ele, o Papai Noel. Nunca conseguíamos ver o Papai Noel. Não que ele fosse uma celebridade pedante como alguns ícones televisivos infantis de hoje, mas porque realmente era muito ocupado. Em apenas uma noite, tinha a missão de entregar os presentes para as crianças do mundo todo. Naquela época o Papai Noel era, sem dúvida, o grande campeão em número de cartas recebidas. Hoje as estatísticas mostram que ele não está nem entre o Top-10 dos que mais recebem cartas. Atualmente o ranking é liderado pelo astro pop Justin Bieber, seguido da banda Restart, em terceiro lugar aparece o astro sertanejo Luan Santana. O restante da lista é composto por cantores de funk carioca, duplas sertanejas, cantoras do axé-music, apresentadores de televisão, jogadores de futebol e personalidades em evidencia da Comédia em Stand-up. Ícones com Xuxa, Angélica e Eliana também já não figuram no ranking há anos, desde os tempos do Coelhinho da Páscoa e dos Trapalhões em sua formação original, mas insistem em manipulação dos dados da pesquisa para se manterem na mídia.

        Mas, o fato do Papai Noel não figurar mais na lista, não quer dizer que as crianças deixaram de acreditar nele. Não. As crianças de hoje continuam acreditando nos diversos Papais Noéis espalhados pelas grandes lojas e shoppings da cidade. A diferença é que Papai Noel, hoje, é uma profissão como outra qualquer. Tudo muito lógico. O Papai Noel ouve o pedido da criança que ficou na fila para tirar uma foto em seu colo por imposição dos pais, o pedido é processado por um sistema que a criança não sabe e nem quer saber exatamente como funciona. O presente chegará ou não conforme o pedido, de acordo com uma equação de regra de três simples: merecimento da criança x situação financeira dos pais x disponibilidade no mercado.

O perfil do Papai Noel atual também já foi traçado pelo último Censo do IBGE; ele mora na periferia, anda de ônibus, paga aluguel e ao invés de neve, nesta época do ano, sua casa, normalmente fica ilhada pela enchente que assola a cidade. A maioria não tem carteira assinada, trabalha como temporário sem direito a vale transporte e alimentação em escala de 12 x 36 revezada numa equipa de três colegas de profissão e durante o restante do ano, vive de biscates para sustentar a família.     



Escrito por Marcelo Nocelli às 19h53
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Durante a madrugada o doutor Socrates subiu aos céus

E a manhã de domingo nasceu Corinthians!




Escrito por Marcelo Nocelli às 10h58
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Texto de auto-despedida

 

Devia ter estudado medicina. Ou engenharia.

Mas não, resolvi me enveredar pelo mundo das letras sonhando ser um escritor.

Não deu em nada.

Demorei muito escolhendo entre um curso e outro que não fiz...

Esse ócio todo me levou a tomar contato com extraordinários livros, discos, poesias, filosofias, teses políticas e outras leituras que, dizem, só servem para perturbar a vida dos “trabalhadores de bem” e a paz mundial. Ainda bem que não tive filhos, seria mais gente para decepcionar.   

            Enquanto escrevo estas linhas, bebo a quarta ou quinta dose de uísque. Já perdi a conta. A garrafa está quase no fim. Minhas doses sempre foram bem servidas, transportando-me para um estado onde a vida se torna possível e a angústia parece desaparecer por algum tempo. Meu pai sempre dizia que artistas são, em sua maioria, bêbados, drogados ou homossexuais. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Seres tão desprezíveis ao ponto de sua própria criação justapor-se à sua existência. Quem me dera! De qualquer forma, ele viveu apreensivo do que daria, afinal, minha vida, essa possibilidade de me tornar um grande escritor, um artista de verdade, atividade tão objurgada pelo velho, me satisfazia uma ponta de vaidade que nunca consegui reprimir. Quando ele se foi, senti o gosto amargo da derrota por não ter tido em tempo a chance de desapontá-lo. Mas tenho comigo que ele morreu vencedor dessa batalha, sem saber.

            Talvez eu tenha optado pelo gênero errado ao definir minha escrita. A prosa nunca foi meu forte. Acho que sou apenas um poeta lírico de passagem pela vida.  Nunca escrevi poesia. Sempre busquei vivenciá-las. Pena a vida não ser considerada obra literária; me pouparia esforços na busca por construções sintáticas que não deram em grandes feitos. Julgo ter chegado a um estágio em que a gente já sabe aquilo que é. Fui sempre muito intenso. Sem qualquer registro, fora a memória, não encontro a palavra escrita, nem falada e não tenho como comprovar tudo isso para eternizar os versos vividos.

A literatura não se conforma com o vazio que sempre preencheu minha poesia, estrofes que não são suscetíveis de leitura, por isso; encerro aqui este último texto que, como todos os outros, não terá um leitor sequer, para criticá-lo. 



Escrito por Marcelo Nocelli às 18h02
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Bar do Frango

Fazia tempo que eu queria conhecer o Bar do Frango. Eu já sabia que por lá se apresentam grandes nomes da música e da poesia paulistana. E ontem finalmente chegou o dia. À convite do meu amigo Cicinho Bonneges, seguimos para o Parque São Lucas.

A princípio, quando entrei, achei o lugar um tanto quanto... pequeno demais. Eu só não sabia que o pequeno espaço é um gigantesco  templo da cultura. E depois das apresentações a música rola solta com violões pelas mesas, cantores em todos os cantos num clima intimista de amizade e descontração... Nesse domingo, por exemplo, lá estava o cantor Marcelo Barum (Grupo Tarumã), o escritor João Roberto Laque, com quem troquei livros e dedicatórias, meu amigo Tião de Sá, entre tanta gente boa que conheci por lá. Sei que nomes como Lula Barbosa, Miriam Miráh, Elomar, Amauri Falabela, João Bá, Julian Tirado, Nanah Correia, Graziella Hessel entre tantos outros são presenças constantes por lá.

 

Vale a pena conferir este ambiente agradável demais:

 

BAR DO FRANGO:

 

Av. São Lucas, n. 479

(quase ao lado da Igreja de São Lucas.)

A Avenida São Lucas começa na Luis Inácio de Anhaia Melo, altura do 5.000. A estrada do Oratório também é uma boa referência pois cruza com a São Lucas.



Escrito por Marcelo Nocelli às 20h55
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AMANHÃ (23/11/2011)

TEM JOÃO SILVÉRIO TREVISAN NA ZN (EM SANTANA) NA BIBLIOTECA NUTO SAN´ANNA

O ESCRITOR NA BIBLIOTECA

Criado em 1981, o projeto O Escritor na Biblioteca coloca os escritores em contato pessoal com os leitores. Através de um painel de debates, o escritor apresenta sua obra e relata suas experiências, promovendo a aproximação com os leitores e estimulando a criação literária e o gosto pela leitura.


João Silvério Trevisan
Jornalista, escritor, roteirista, cineasta e tradutor, João Silvério Trevisan já ganhou diversos prêmios, entre eles o Jabuti e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). É um dos fundadores do grupo de defesa dos direitos homossexuais "Somos" e criador do jornal temático "Lampião da Esquina". Entre suas obras estão "Troços e Destroços", "Ana em Veneza" e "Testamento de Jônatas deixado a Davi".

Dia 23 de novembro às 10h

Endereço: Praça Tenório Aguiar, 32
Santana - 02044-080 São Paulo, SP
Tel.:11 2973-0072
Horário: 2ª a 6ª feira das 8h às 17h e sábado das 9h às 16h
bmnutosantanna@yahoo.com.br



Escrito por Marcelo Nocelli às 01h46
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UM NOVO SARAU NA ZONA NORTE

QUINTA-FEIRA 17/11 - À PARTIR DAS 20HOO, TEM O SARAU DO MEU AMIGO CICINHO BONNEGES... AQUI NA Av NOVA (AV. LUIZ DUMMOND VILLARES, 2.104, AQUI PERTINHO - NA ZN - AO LADO DA ESTAÇÃO PARADA INGLESA DO METRÔ... 

 



Escrito por Marcelo Nocelli às 13h46
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Viva a poesia

 

         Desde pequeno, mesmo sem qualquer incentivo da família, morando na periferia de São Paulo, Robson sempre gostou de ler. Lia tudo que aparecia na sua frente; gibis eram os preferidos, mas na falta destes, se contentava com jornais velhos, pedaços de revistas, anúncios, manuais dos eletrodomésticos que a família comprava com dificuldade e até as bulas dos remédios que tomava. Lia tudo, mesmo sem compreender o contexto.

         Na adolescência, sem livros em casa, o garoto passou a frequentar a biblioteca do bairro, dedicando tardes inteiras a procura de livros nas estantes como quem busca desesperadamente uma saída de um lugar totalmente desconhecido. Foi esse hábito compulsivo que o levou a desistir dos estudos quando terminou o ensino médio. Não queria estudar. Apenas ler romances. A vida era, sempre, uma grande ficção. O que ocasionou em um futuro sem profissão.

         Quando passou a maioridade, sofreu com a perda dos pais. Buscou algum alento, como sempre, na leitura. E só no dia em que resolveu comprar um novo romance é que percebeu sua nova realidade. Daquele momento em diante teria que se manter. Com a pequena herança que recebeu comprou um pequeno bar falido no bairro. Com o pouco dinheiro que restou reformou o estabelecimento e convidou alguns músicos para tocar durante as noites de sexta e sábado. Decorou as paredes do bar com telas, esculturas e artesanatos de artistas desconhecidos que moravam na região. Logo o lugar passou a ser frequentado por estudantes, professores, músicos e poetas. Alguém sugeriu que ali deveria acontecer, mensalmente, um sarau, onde essas pessoas poderiam, enfim, mostrar seus trabalhos. Robson decidiu que o encontro das artes aconteceria todas as segundas-feiras e em pouco tempo a casa ficou conhecida por artistas independentes de toda a grande São Paulo. O bar acolhia mais de cem pessoas entre as espremidas dentro do pequeno espaço e as que ocupavam as calçadas da esquina periférica que se tornou o centro das atenções. Carros já não passavam mais por ali nas noites de segunda-feira. Foi ai que Robson tomou contato com a poesia, literatura que até então ele praticamente desconhecia. Rapidamente começou a ler tudo sobre o assunto e entre tantos grandes nomes, se encantou com Manoel de Barros. Leu toda a obra (publicada) do autor. Não contente, procurou saber mais sobre a biografia do poeta do Pantanal. Ficou surpreso em não encontrar um vasto material. Não descobriu quase nada sobre a vida do maior vendedor de livros de poesia do país. Sabia apenas que o homem simples de versos e frases da mais profunda naturalidade vivia isolado no pantanal mato-grossense. Robson tentou contato por cartas, e-mails para a editora do autor e, nada, nenhuma resposta. Não contente e desesperado em saber um pouco mais sobre aquela linguagem que o encantara, Robson decidiu que iria (a pé se fosse o caso) até o pantanal para conhecer pessoalmente o autor que, sem qualquer motivo aparente, se tornou um ídolo da noite para o dia. Precisava perguntar para ele o que era realmente a poesia, como poderia ler e entender tudo aquilo que, de repente passou a angustiá-lo tanto, ao mesmo tempo em que lhe trazia alívio, tristeza, alegria e beleza. O que seria aquela inquietação toda que a leitura dos poemas lhe causava?   

         Após um encontro das artes, numa segunda-feira fria e chuvosa, Robson começou sua caminhada. Na Rodovia dos Bandeirantes pegou a primeira carona em um caminhão de cana que o deixou numa pequena cidade do interior do estado de São Paulo. Dali seguiu caminhando um dia e uma noite. Outras caronas vieram em carros de famílias, vendedores (caixeiros viajantes modernos) outros caminhões. Dormia e comia em pequenos postos de gasolina e pensões simples de beira de estrada. Conheceu pessoas, fez amigos, descobriu mundos e vidas inteiras que nunca imaginara existir. Experimentou comidas, bebidas, sensações, cheiros e saudades que até então desconhecia ou que já não se lembrava mais.

         Foram mais de quinze dias até chegar a Campo Grande. Lá ficou por dois dias até conseguir informações sobre o paradeiro do poeta. Quando finalmente o encontrou, numa casa de campo simples nos arredores da cidade, foi recebido pelo poeta, a princípio, contrariado com sua presença e que logo o perguntou:

         - O que você veio fazer aqui?

         Robson, quase sem palavras, disse que precisava conhecê-lo saber o que é a poesia, como identificá-la. Depois contou toda sua trajetória de dificuldades para chegar até ali.

         O velho poeta respondeu:

         - A poesia é a virtude do inútil. Também disse que há várias maneiras de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. Depois o poeta perguntou detalhes sobre a viagem de Robson e ouviu atentamente as respostas e as histórias inusitadas contadas com empolgação pelo jovem viajante, ao que o poeta lhe respondeu:

         - Isso é a poesia.

         Robson passou um mês inteiro hospedado na casa do poeta. Durante todos esses dias, saiam para pescar e conversar. E foi numa dessas tardes que o poeta lhe disse sorrindo:

         - A poesia está dentro da gente. Eu mesmo, vivo tanta poesia que, de dentro de mim não saiu nem para pescar.    

 

Texto publicado na Revista ZN de novembro (2011) em homenagem aos poetas: Manoel de Barros e Robson Pardial (Binho)



Escrito por Marcelo Nocelli às 19h03
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            Velhos, amigos.

 

    Após a morte do pai, André achou que era hora de voltar ao Brasil e assumir o renomado escritório de advocacia. Ao concluir com êxito o curso de direito da USP, foi morar nos Estados Unidos, fez doutorado em Harvard, passou por estágios e fez carreira como advogado em Boston, onde morou nos últimos doze anos. Agora, aos 39,  estava de volta a São Paulo.

       O conhecidíssimo escritório Ferreira & Ferreira Associados tem como colaboradores excelentes advogados, mas nenhum deles tão primorosos quanto o velho Dr. Alcides Ferreira, que, após sessenta e cinco anos de carreira, descansará em paz.

         André teria pela frente a difícil missão de substituir ao pai, tão respeitado e querido por todos. Mesmo assim, estava confiante, trazia na bagagem sua brilhante carreira internacional. O pai nunca havia saído do país, morria de medo de avião, dizia que adorava seu país, a mesma desculpa que usava quando lhe perguntavam por que nunca aprendera outro idioma. André falava fluentemente quatro línguas.

        Depois de ocupar a antiga sala que pertenceu ao pai, André trocou toda a mobília. Pendurou na parede seus diplomas e requisitou uma reunião com todos os funcionários.

        Quando a reunião terminou, André voltou para sua sala. Abriu a porta e se espantou com seu Osmar, que colocava um vaso de plantas num canto da parede.

- Meu senhor, fui eu quem mandou colocar esse vaso na sacada!

- Desculpe doutor, mas se ela ficar lá, vai morrer. Lá bate sol o dia todo, com esse calor de São Paulo. Melhor deixá-la tomar o sol da manhã, e regar duas vezes por dia. Por favor, não esqueça.

Seu Osmar saiu da sala. André saiu em seguida, batendo a porta.

- Por que temos um faxineiro ao invés de uma faxineira? Perguntou o novo presidente à sua secretária.

- Não sei doutor.

- Quem faz o café?

- Seu Osmar, melhor do que ninguém.

        No segundo dia, André chegou ao escritório por volta das dez horas. Passou pelos corredores, entrou na sala e lá estava o homem novamente.

- O que o senhor está fazendo aqui?

- Passei para verificar se o senhor havia regado a planta. Mas como sua secretária informou que o senhor nem havia chegado, resolvi eu mesmo regá-la. Agora vou colocá-la pra dentro.

- Mas eu já não falei que não quero essa porcaria aqui dentro!

         - Desculpe, doutor, vou deixá-la onde o senhor mandou.

O velho já ia saindo da sala, quando André se aproximou e colocou a mão sobre seu ombro:

- Me desculpe, seu Osmar. Tudo bem, o senhor tem razão, pode ficar à vontade todos os dias para regar a planta e trocá-la de lugar conforme achar melhor - André continuou tentando se redimir - Mas me diga, seu Osmar, como o senhor faz um café tão gostoso desse jeito? Nunca tomei melhor.

O velho pareceu se alegrar:

- Na verdade, doutor, trago o café que colho na minha pequena propriedade, uma terrinha que tenho aqui nas proximidades da serra da Cantareira, mas na parte de baixo, fica bem antes da casa do vosso pai. É no caminho. Lá tenho uma horta, tenho café, laranja, milho. Tenho boas mãos para plantação. Nasci e cresci na roça. Eu mesmo môo e torro o café. Mas o segredo é passar no coador de pano... Doutor, o senhor tirou todas as coisas do doutor Alcides, o que fez com elas?

        - Levei para casa dele. Respondeu André, olhando para o relógio.

        - Ah... sei... Por acaso o senhor não viu por ai um velho caderno de Cordel?

        - Desculpe, seu Osmar, não me lembro, mas vou pedir a alguém que procure na casa do meu pai, caso encontre, entrego ao senhor.

        - Muito obrigado. O senhor trocou o quadro da paisagem que estava na parede por esse rabisco aí, né?

        - Eu prefiro arte moderna, além do mais, estava velho, meio sujo, era muito bonito, mas não combina com a nova decoração. Não gosto de paisagens. Esse tipo de pintura com uma casinha, riacho e barquinho... Só uma questão de gosto. Mas se o senhor quiser o quadro, eu...

        - Não, de jeito nenhum, o quadro é do doutor Alcides.

        - Tudo bem! Olhe, seu Osmar – continuou André pacientemente – Esta sala agora é minha, infelizmente meu pai se foi, e tudo o que era dele, agora é meu, mas o senhor pode ficar tranquilo, não vou me desfazer de nada, vou guardar tudo, sei que são verdadeiras relíquias. Depois que conseguir separar tudo levo o senhor até lá para que pegue o que desejar guardar como recordação.

        No dia seguinte, ao entrar na sala, André novamente depara-se com seu Osmar. A planta já estava no canto da parede. Ao lado, duas varas de pesca, um binóculo, um álbum de fotografias com imagens dos amigos Osmar e Alcides pescando no pantanal e um livro de poesias de Patativa do Assaré.

        - O que é isso seu Osmar? Perguntou André sorrindo.

        - São as coisas do doutor Alcides que estavam comigo emprestadas. Vim devolver. Agora são suas. Só peço ao senhor que me devolva o livro de Cordel, apesar de estar com o doutor Alcides há mais de dez anos, é meu.

        - Tudo bem, vou procurar o tal livro. Ah... Aquele quadro já encontrei. O senhor vai querer, seu Osmar?

        - Não! De jeito nenhum. Quando pintei aquele quadro, dei de presente ao doutor Alcides, é dele, assim como esses outros objetos.  



Escrito por Marcelo Nocelli às 19h44
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